A moça de muito tempo atrás
Conheci uma moça que veio de muito tempo atrás. Uma moça que trazia alegria por onde passava, que agradava a todos, que sabia sorrir e oferecer ao mundo o que ela tinha de melhor. Pensava que era alguém que eu queria ser. Mas pensava muito na superfície dos sentidos e quereres, quiçá verdades. Um entendimento tardio de quando eu me encontrei mais forte mesmo, num enfrentamento que quase me enforcou. Ela trazia consigo um carrinho de compras muito esquisito que trincava o chão onde passava. Um carrinho como não se faz mais. Feito por mãos exigentes, que pecam pelo primor. Mãos cheias de calos, que hoje sangram. A moça de hoje, já mais velha, puxava o carrinho como se puxasse um comboio, só que sem a escolta. Sua respiração, arrastada, só descansava quando deitava no alto da noite e seu suspiro sufocava os pernilongos que ela esmagava com seus dedos já tão cansados. A escolta veio depois. Muito depois e era carrasca, não oferecendo proteção. O carrinho, ele mesmo, a essa altura, ficava na beira do degrau que dava pra rua, espiando se a vida, dele e só dele, valia alguma coisa que fosse, por causa de tudo o que aguentava, do tanto que carregou. Espiava também todas as outras pessoas e seus passos que desviavam dos olhos do mundo, que queriam ser fendas entre encontros e espaços obscuros. Assisti inúmeras vezes ofertas de ajuda. Algumas gentilezas, súplicas e também cantadas abusadas. "Eu carrego, moça, não custa nada." "Deixa comigo, gostosa, um favor pelo outro, vai?" "Posso ajudar? Parece pesado, moça." Ao que ela respondia com um leve movimento dos lábios, vagarosamente distendidos, quase que um tique. Nervos timidamente afetados, às vésperas de um ligeiro riso. Se era alguém conhecido dela emendava qualquer assunto, mas assim, podia ser o preço do peixe na feira, os novos lençóis de algodão mil fios, o calor que tem feito, e puxava o carrinho escondendo a respiração grave entre uma gargalhada (que só ela percebia como 'mais ou menos' natural), uma pergunta exageradamente curiosa, seguida de muitos comentários manipuladamente aguardados socialmente. E seguia, tocava seus passos. Também era admiravelmente muito boa em esconder que não era apenas o carrinho de compras que arrastava por conta de tudo, mas justamente ela inteira. Então lembrou-se de quando tudo começou, a tristeza que não havia sido causada pela primeira traição, nem pelo primeiro aborto. Ou antes disso tudo, pelas primeiras dores e traumas da infância. O parto. E antes do parto ainda, coisa de muito, muito tempo atrás. Rastros de uma história sob pó. Não que ela não tivesse buscado ajuda, pelos menos é o que dizem. Antes de ter sido chamada de louca, colocada contra a parede pela sua mãe, carne da sua carne. "Isso é coisa pra maluco, não criei filha maluca, filha minha é forte! Agora arruma essa cara, cadê o batom? Pronto, passou." Mas não passava. A verdade é que na dialética que ela travava sentada educadamente no sofá só tinha espaço pro outro, pra ser aquilo que esperavam que fosse. Em linhas tortas porém de um campo geral: abafadamente amável. E pouco importava que fosse abafadamente amável. Socialmente ajustada, justinha na sua forma de sentir. Uma saia de linho palito. Durante os cinquenta minutos era aceito limitados repentes de dor, breves cortejos lacrimais, mãos transpirando, pequenas demonstrações de ciúmes, etc., etc., etc. Se beirasse extremo desconforto o pigarro do terapeuta cuspia um gutural 'stop' e a respiração dela voltava a cumprir o esperado e o corpo se re-compunha nos desconfortos das entranhas. E então, sentia-se ela mesma, quase sob controle. Um filetinho de alma. Brecha de esperança. E eu ainda assim a invejava. Seus cabelos eram fortes que ela nunca tingia. Seu olhar era igualmente forte, tanto que riscava o horizonte e era apaziguado apenas pelo seu sorriso. Era uma pessoa forte de se olhar. Era uma fortaleza vista de fora. E o seu carrinho cabia tanta coisa ainda; e ERA tanta coisa. O peso de uma vida. Isso! O carrinho peso de uma vida. As consultas iam e vinham feitas estações, esperadas contudo já não traziam novidades, desafios e aprendizados. O trauma e as velhas histórias que contava para si mesma a embalavam de um jeito doentemente materno. Na verdade atropelando seu olhar pra dentro. Mas havia esperança pois tinha aprendido a não culpar os outros pela forma como se sentia, pelos medos que alimentava, pelo ciúmes irracional, pelas múltiplas personagens cinematográficas imaginadas e enredos tramados com uma riqueza de detalhes que faltava em sua vida pessoal, não fictícia. Havia parido uma criatura sem face que crescia desproporcionalmente dentro de um invólucro mentirosamente útero, só que tão sútil, quase transparente, que ficava difícil de rasgar, colocar pra fora. Devia matá-lo. Pedaços de si mesma diziam isso, "mate-o"! Agora! Parecia que gostava da dor mais que de si mesma. Parecia que tinha esperança. Tinha? Foi quando me dei conta que a cada passo e curva que fazia, que a cada dia e semana que passava, o carrinho ficava mais pesado, começando aos poucos a arrastá-la. E desenvolveu mecanismos de sobrevivência. Precisava lembrar que cabia a ela, somente a ela, sua própria salvação. Puxava então o carrinho com mais força ainda, tirando dele o gosto opulento do poder. O acúmulo - que guardava desde as coisas mais banais, mas mais banais mesmo até aquelas que precisava de ajuda para levantar - passou a ser quase autônomo e a trocar de lugar com ela. Uma gangorra tóxica.
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