Cenas domésticas revisitadas
Domingo, Fevereiro 24, 2008
Cenas domésticas - ato 1
Sabe a parede vazia. Não é uma pergunta. Vazia quase morrendo, sem quadro. Não tem interrogacão nenhuma aqui, você vê coisas.
Eu explico. Minha mãe tinha esse quadro do Renoir. Ela não era rica, pois que era uma cópia barata. E eu tinha essa relação ambígua com a menina do regador - suas botas me perseguiam e eu queria ser como elas que só queriam ver o vestido, porém o chão. Havia também a imaginação e o quadro sinistro manchado de uma luz esverdeada incidindo sobre um sujeito muito distante. Eu era não-olhares. Fiz da dúvida o fato e nunca perguntei aos pais sobre este último.
Na mudança, ele sumiu. Um feito sete-estrelas e o trevo recortado do jornal, no bolso. O quadro do pintor desapareceu também e eu receio que o bingo do bairro Mondezir tenha feito bom proveito. Muitas velhinhas felizes e paredes vestidas. Então, o rapaz da mudança e do bingo. Pode ser.
Agora a parede rasa e a vista abandonada. Anos mais tarde o quadro no museu. Meu eu crescido e desejoso. Elas nos olham sem saber, pensei. Dessa vez achei a menina infeliz e o regador num quase ai. Liguei a câmera, mas o segurança fez dedo que não. Eles chegam pra entrevista de emprego assim, com o dedo pronto.
À minha mãe. Escrevi uma carta endereçada ao museu e colei o selo de natal do melhor ano de nossas vidas. 1989. Pedia que eles o deixassem, o quadro, dar uma volta na casa dos meus pais. Ia ser assim próprio, benévolo de muitas sutilezas. A luz, o varal e a atmosfera pré-ocupadas no canto da varanda e de longe o sofá. E no final do corredor a parede e eu, sem desculpas.
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