Infância I
Minha avó era muito conhecedora da natureza e de vasos de barro, tinha pés e mais pés de samambaias
que florestavam a varanda da sua casa compondo orquestra verde, viva.
De samambaia eu só compreendia cobra.
Elas se empoleiravam feito pássaros na minha casa no interior da mata Atlântica,
mas que pássaras pois eram de uma cor feia.
Cor esquecida, tanina, jacuru. Cor de pássaro mulher como a gente aprende nos livros.
Ficavam alí me vendo criança. Chorando criança. Brincando criança.
Eram dotadas de muita observação as cobras. Causavam sofrimento maior em minha mãe que via nelas
a despedida da inocência.
Um pensamendo de camundongo que a cobria de medo, fazendo com que se escondesse consternada.
Telas em todas as portas e janelas. No fundo queria se mudar para longe, cidade onde nasci e que
devorava mato.
Com a minha avó era outra história. Aprendi a olhar como ela, com precisão, quase até cegar. E não sei se
deixei de vê-las ou se elas deixaram de me ver.
A minha imaginação não povoava mais coisa alguma. Era uma floresta pelada delas.
Extinguidas de qualquer malícia. A inocência alí morava porque havia espaço pra ela e eu queria ficar.
Alí comigo ninguém podia.
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