Infância II
Teve uma época que moramos no topo da vila. Quando digo topo me refiro a parte mais alta, o morro do vilarejo. Alí ficava nossa moradia temporária. O jardim dos fundos, um dos maiores que já tivemos. E a frente dava para uma clareira onde, respeitado o tempo, as cigarras cantavam e soltavam seus corpos sobre um manto de folhas secas, sobrepondo-se atemporal. Dizem que ainda se pode escutar seu canto e ouvir o barulho do chão rachando outono. As cigarras e a descida do morro eram meu grau supremo. Ainda que seu canto angulado fosse muito para o meu ouvido pouco desenvolvido, ainda que eu fosse muito pequena para dominar a liberdade do topo.
Quando eu descia era cigarra e todos os meus medos e preocupações, efêmeros. Quando descia sabia que estava por pouco. Estava eu sozinha negociando com os segundos. Só que a mãe chamava e a subida, sofrida, me espiava como se fossem gaviões e anús-brancos, declarando guerra ao meu espaço de criação. O embate, desde sempre, como condição humana. Por isso todos os dias eu pegava minha bicicleta,
endireitava o guidão,
me posicionava no centro do morro,
da rua,
e pedalava o mais rápido que conseguia.
Em alta velocidade eu me fundia com aquilo que havia de mais precioso.
Eu era apenas eu.
É um prazer ler os textos de Isabella. Fazem-nos refletir e nos levam a infâncias passadas.
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