Quando não há mais tempo
Preambulo
De todas as famílias que viviam na comunidade esquecida de Cavalcanti, dizem que eles eram os mais adaptados. Resistindo ao estilo de vida nômade, eles ali ficaram apesar das estações, das longas secas e queimadas. Aprenderam a viver onde florestas-galerias ainda se permite contemplar - um contrato quase sagrado que era tão conflitante quanto a realidade.
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À medida que o dia se veste de escuridão
Dá pra escutar as crianças: formigas artesãs consumindo e decompondo matéria orgânica. Alegriazinhas contadas que repartiam para dar um pouco todo dia, deixando sobras para aniversários e quermesses.
Quase não se via, incluindo as crianças, que no arregalo maior da noite Graciliana chorava seco. Lágrimas de estiagem perdidas nos canais de seu corpo, movendo um dinamismo anti-pantanal:
pesadas,
complexas,
sobrepondo tecidos.
Vinha segurando o coração na mão desde que o marido sumira nas terras do João Alabastro há coisa de alguns anos. Elas, as mãos, tinham o aspecto de fruta seca, vestígio de ameixa ou uva-passa, que o patrão dele enviara de presente no dia do Bom Jesus, em uma época de fartura e fazer filhos em cangote de cavalo.
Na primavera a vida tinha outros planos.
Aninhados contra os fogos que devoravam o cerrado de tempos em tempos e estruturados na mesmice de tamanho habitat, eles se satisfaziam em prazeres para que sua espécie não se desse extinta: tiveram sete crianças. Dois se foram antes do primeiro ano e eles enterraram nos fundos do cemitério para não pagar o lote que custava dinheiro de um ano de trabalho. Outros sobreviveram a contratempos que pareciam inventados e depois, já meninotes, morreram de pneumonia, tuberculose e raiva respectivamente. Cada um preenchendo seu destino trágico. Apenas dois sobreviveram para contar suas histórias: Ingracia e Graciliano.
Quando Graciliano era pequeno, menor que um tronco de cortiça, segurava a mão da mãe e apertava sua pele cheia de veias e dobras com a mesma ansiedade do futuro, vidente de si mesmo. Andava atrás dela feito bezerro que não queria desmamar. Numa insistência custosa. Graciliana não ligava e tocava os seus afazeres devota, sem emitir um resmungo. Sem entoar uma reza, pois que ela encontrava tudo de que precisava lá fora, inclusive a paciência que observava na natureza.
A força da paisagem selvagem, brutal, exercia um peso sobre a sua vida e a de sua família.
Eram os bichos ou eles.
O calor ou o de comer.
Vida e morte em constante entrave.
Quando Graciliano adoeceu, o bando todo ficou à guisa do pior, beirando a cama dele em turnos de três em três horas, marcando o tempo como as estações marcam o ano - ora em silêncio, ora em tempestuoso pranto.
Graciliano
A tosse havia sugado todo o pulmãozinho dele e o lábio roxo, aflito, causava aperto.
O pai prometeu que faria das tripas coração. O seu repertório de simpatias dava para curar o povoado e mais quem fosse e a primeira que tentou foi a do lobo-guará já que a população do vilarejo tinha pouco apreço pelo animal de alma silvestre. O ritual se desenrolou conforme o conto, com Graciliana aparando as unhas da mão direita com as unhas do pé esquerdo do menino e colocando-as dentro da boca de um peixe, que em seguida era costurado e dado para o lobo comer. Vigiar o bicho era crucial. Vigiar como quem vigia o inimigo em cativeiro. Mas não encontraram lobo nenhum e o desânimo que bateu foi geral. Desânimo devora-dor de um começo que desandou e que até hoje é motivo de falação entre aqueles que ficaram - culpam o pai pelo que não foi, pesando a alma cósmica do lugar.
Bendito foi quem se lembrou do velho curandeiro e do cabrito amarrado no portão. Parecia coisa armada. Não havia portão, mas um arco antigo que entornava antecipando o horizonte e - antes que seus olhos fossem capazes de olhar: a paisagem do cerrado desafiando a solidão. Foi o pai que instruiu a mãe a recolher aquele monte de bosta seca que o bicho dispensava sem esforço algum, já quase sem cheiro, para que levasse pro homem do povoado vizinho, Seu Mequelelem.
Conhecido pelos seus patuás, os costurava como quem reza com fervor e cada relíquia que criava tinha poderes, apesar de que assim só se dizia e não se contestava. Ele vivia numa cabana escura com um fio de luz pendurado no meio. Era quase aquilo, imagina, um filete de luz do sol que incidia no meio da casa. Comia aquilo que traziam, forma de pagamento, e não passava miséria. Tinha ares grandes, de modo que Graciliana o olhou de soslaio, com respeito. Ela esperou do lado de fora. O calor rachava a terra e um pouco d'água, resto de chuva, evaporava apressadamente.
O menino passou as noites seguintes com o patuá apertado na mão, segurando com tanta paixão que era difícil não chorar. Assim segurava sua própria vida no recipiente frágil que eram suas mãos. A tosse ia e vinha, ia e vinha. Às vezes tentavam lhe tirar a relíquia da mão, temiam que o suor pudesse afetar o efeito, mas quem disse.
Em vão.
Ingracia
A esperança era agora uma sombra pálida dentre seus desejos mais profundos. Trazendo nada, mas um crescente senso de urgência, eles não podiam deter o tempo. Nem o pai, nem Mequelelem. Deus havia partido, deixado com cada criança que veio e se foi. E a Ingracia a essa altura era quem passava as tardes com ele quando a mãe não podia, numa saudade tamanha da companhia do irmão lá fora. Saudade carregada de um outro ele, de um outro estado de tempo.
Era cuidadosa. Trazia pedrinha e pena de pássaro, inclusive o estilingue bem do lado dele na cama, tudo juntinho feito ninho bem arquitetado. E rezava pra que ele não sucumbisse,
para que ele não se esquecesse da alegriazinha que eles tinham de cuidar.
Foi na sexta-feira Santa com o menino quase bom. O pai mais calado do que nunca teceu a última simpatia do ovo e da galinha. Era como voltar às origens. Graciliana sentiu o ar úmido e imaginou que o sal estava a formar pelotas. Nuvens cinzas tomavam o céu do meio-dia. Chamou o marido que de longe fez sinal para ela entrar. Em seguida apareceu com o ovo na mão e com todo cuidado daquele mundão fez um furinho usando prego mais fino que espinho e ali depositou as unhas do Graciliano. Pendurou o ovo num alpendre e entrou.
Ingracia queria saber. Ficou olhando o ovo pendurado balançando com o vento. Passou horas assim, semi-catatônica. Arregalava os olhos quando achava que ia cair. Bocejava quando nada acontecia. Olhava e sofria cada vez que o ovo dava sinais de que estava pra cair, falhar. Ela olhava e sentia culpa porque na verdade sentia tedio. Porque estava viva e bem.
Agora o ovo, seu conteúdo e seus pensamentos precisavam secar. E secando, secava também a tosse. Pondo fim naquela angústia. Uma procissão de sintomas desprezíveis.
O pai foi embora semanas depois. O menino já estava bom. Ingracia tinha voltado à rotina de futucar terra e ninho de passarinho. De pintar o barro com seu corpo. Ninguém não viu a hora, ficaram sem a partida, sem explicação. Graciliana acordou com metade da cama fria. A bota não estava na porta, nem o chapéu. Imaginou coisa de saída rápida. Andança pela redondeza, mas no fundo sabia pois que sentia um aperto seguido de um vazio. Quando as crianças perguntavam do pai ela dizia que tinha ido fazer serviço nas terras do João Alabastro. Na cabeça das crianças virou serviço grande e importante. E faziam planos para quando ele voltasse, imaginavam como iam celebrar, cravando assim seus dias, sobrevivendo a dor e a crescente expectativa, até que devagar já não o mencionavam mais, não conseguiam se lembrar da sua feição - deixando do lado de fora seus desejos mais secretos:
desfalecendo e soltando devagarinho com a inocência de dentes de leite.
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