O eu cachorro
Gosto de cachorro porque ele escava,
enterra e desenterra.
Ele esconde seus segredos preciosos, ossos carnudos, gostosuras que lhe foram dadas na terra úmida e fértil do quintal, do campo aberto, dos terrenos baldios.
Eu cachorro esqueço muitas vezes do que tenho enterrado ou de escavar em primeiro lugar. Temo o que vou encontrar nos túneis férteis e escuros da psique.
Temo o osso ressecado, sem resquício de vida, de carne. Quero osso com sangue que ainda pulsa. Ser cachorro, cachorra que anseia pela esperança bem nutrida. Uma esperança na forma de um bife.
O solo recém escavado é fartura e sacia. Atrai cães que vêm de longe e mulheres que viajam um dia e uma noite inteiras. São criaturas que não conseguem permanecer muito tempo na vigília, vítimas de suas bagagens mais profundas, mais pesadas.
Quando a hora chega, munidos de seu arcabouço vital, eles reviram terrenos, jogam seus receios pro alto, espalham e cavucam a terra encontrando suas prendas e pedaços de si mesmos.
Lamber os próprios ossos é o primeiro passo em direção à morada do eu.
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